Era uma vez: O galo Juvento



Um galo valente com um passado triste. Juvento terá a chance de se vingar, mas antes disso cometerá vários enganos. ♥




O galo Juvento

A história que irei contar aqui é de um galo muito valente, que não se dobra para ninguém. Tudo para proteger seu harém de galinhas, principalmente as topetudas do galináceo: Marizin e a Maricota.


O galo se chama Juvento. Ele não se lembra muito de onde veio, mas estou aqui para contar. Desde pintinho ele tinha muita interação com uns seres grandes e com as caras amassadas. Os Sem Bico.


Juvento era o pinto mais apegado à mãe galinha, não saia de perto. O que ele não imaginava era que um ser Sem Bico tinha planos nada legais para ele.


Numa madrugada, enquanto todo mundo ainda estava dormindo, a porta do galinheiro se abriu fortemente fazendo um barulho que ficou gravado no inconsciente do pintinho Juvento.


Foi tudo muito rápido, mãos ágeis foram agarrando os pintinhos um a um. Juvento tentou se esconder por baixo de sua mãezinha sem sucesso, as garras do Sem Bico o alcançou deixando-o de ponta cabeça. A última coisa que Juvento viu, antes de ser jogado para dentro do saco, foi as canelas do ser Sem Bico.


Pareceu uma eternidade, mas quando Juvento e os outros pintinhos se deram conta estavam em uma gaiola num lugar muito barulhento e com inúmeros seres sem bico zanzando por todos lugares que se olhava.


Se passou dias naquela gaiola apertada. Juvento era o pinto mais tristinho. Até se ouviu o Sem Bico dizer que se ninguém comprasse iria se desfazer do bichinho.


Por sorte duas Sem Bico chegaram interessadas nos pintinhos e a mais jovem bateu o pé para levar todos, até mesmo o adoentado Juvento. Ele ficou tão agradecido que se apegou na garota. Enquanto iam embora dentro de uma caixa de sapatos, Juvento nutriu a esperança de estar voltando para sua mãezinha. 


Não foi o que aconteceu, em contrapartida o lugar era tão grande e cheio de novidades que a tristeza não conseguiu dominar. Todos aqueles sentimentos ficaram escondidos no coraçãozinho do Juvento. 


🐔


Os melhores dias iam se passando. As seres Sem Bico eram muitos legais e divertiam os pintinhos que começaram a ficar com as pernas compridas e cada um com a sua personalidade. 


“Está na hora de fazer um galinheiro!” Afirmou a Sem Bico mais velha com receio da bagunça deles ficando maiores. 


Com o galinheiro pronto a Sem Bico mais jovem choramingou por eles ficarem longe dela, principalmente o seu favorito Juvento, já que o galinheiro ficava no fundo do quintal da casa. Só que ele e os outros não ligaram, adoraram o espaço reservado para eles e durante o dia ainda podiam andar livremente no quintal da casa. Porém as interações com as Sem Bico foram diminuindo, chegando a vê-las apenas na hora da comida. 


E assim todos cresceram. O Juvento era o único galo em meio a tantas galinhas e não sobrou nada daquele pintinho fofo e apegado à mãe. 


Desconfiado, o galo observava sempre de longe as Sem Bicos despejando a comida. Ele não acreditava em tanta bondade e sentia que suas galinhas estavam correndo risco. Focado nas canelas daquelas seres grandes, estava preparado para qualquer deslize. Ele era o rei daquele quintal e iria proteger todo seu harém.


O negócio começou a desandar quando duas galinhas começaram a disputar o posto ao lado de Juvento. Por serem muito mandonas e encrenqueiras queriam ser a rainha do quintal. E ao verem a natural implicância do galo pelas Sem Bico resolveram agradá-lo. 


Marizin e Maricota pularam nos vasos de plantas e comeram todas as folhas. Tinham umas que nem eram tão gostosas, mas era o caos que queriam. A Sem Bico mais velha, ao ver aquilo, ficou uma fera e as duas galinhas se puseram lado a lado do galo, satisfeitas com o feito.


O castigo não tardou, a porta do galinheiro foi trancada e nada de andar livremente no quintal. Uma nuvem negra caiu sobre Juvento que pensou: “Realmente, as Sem Bico, boas seres não são!”


A galinha Marizim já querendo passar na frente da Maricota foi logo contando o novo plano a Juvento. “Consigo fácil abrir essa porta.” E assim esperaram a casa ficar vazia.  Com os dois pés, a galinha derrubou a porta que não era das mais reforçadas, deixando todos livres pelo terreno da residência. 


Juvento ficou de prontidão próximo à entrada da casa. De jeito nenhum deixaria as seres Sem Bico entrar. Nunca mais!


🐔


Sem imaginar que era o seu dia de azar, a jovem Sem Bico voltou da escola e ao abrir o portão se deparou com um Juvento totalmente diferente daquele pintinho que criou com tanto carinho. 


O galo mirou nas canelas da garota e tudo escureceu como naquela noite que foi enfiado em um saco, agora era grande o suficiente para revidar. E toma bicada, bicuda e voadora. Aos trancos e barrancos a jovem Sem Bico correu para dentro da casa e não saiu de lá até que sua mãe chegasse. 


A Sem Bico mais velha chegou já à noitinha e só viu a porta do galinheiro caída, mas com todas galinhas e Juvento lá dentro dormindo. Ela instalou novamente a porta, sem muita fé que segurasse por muito tempo. A filha esbravejou que o galo a enfrentou e que ele tinha olhos ruins. A Sem Bico mãe disse: “Para de ser mole! Olhe seu tamanho com medo de um galo.” 


E assim foi se repetindo os dias. Porta do galinheiro caindo, galinhas correndo para todos os lados. Juvento vigiando a entrada e a Sem Bico jovem correndo de um galo e sendo chamada de covarde, já que ninguém via. 


E mais um dia, o galo matutava em frente à entrada. Ainda não tinha conseguido correr com a jovem Sem Bico para fora dali. Ela sempre conseguia entrar para dentro da casa. Se não fosse aquela mochila, que sempre colocava protegendo as canelas, com certeza já teria dado certo. 


A garota chegou e Juvento colocou a espora em posição. Ela espiou pelas frestas do portão e suspirou desanimada ao ver todas as galinhas soltas. Se sentou no meio-fio e começou a chorar. 


O galo achou aquilo curioso, não é uma reação esperada de um ser Sem Bico ruim. Quando a garota finalmente teve coragem de entrar, Juvento até pegou leve nos chutes. 


Mas não foi o que aconteceu com a senhora Sem Bico, que chegou mais cedo em casa e viu que a filha não estava exagerando. Foi logo se agarrando em um cabo de vassoura para manter o valente galo longe. 


“Menina, que bicho ruim.” Falou para filha fechando a porta atrás de si. 


🐔


Agora com a dona da casa sabendo, o futuro de Juvento corre perigo, mas ele segue orgulhoso: “Foi por um triz que a Sem Bico não se foi para sempre”, disse.


As duas galinhas Marizim e Maricota se olharam culpadas: “Achamos que isso já virou um exagero.” E completaram: “Não precisamos de tanta proteção. Elas dão a nossa comida.” 


Deixaram o galo pensativo. 


A  irritada senhora Sem Bico ligou no local onde comprou os pintinhos e culpou o dono do lugar, por ter vendido um galo desajustado. E que não devia ser saudável colocar um bicho doido daquele na panela. O homem riu debochado, mas prometeu buscar o animal e reembolsar o dinheiro. 


E foi numa tarde, o sujeito Sem Bico foi chegando autoritário e empurrou umas notas nas mãos da dona da casa. 


“Só isso? Ele não é mais um pintinho.” Esbravejou a dona Sem Bico. 


“E tá recebendo é muito! E vou levar também todas as galinhas, só assim para pagar meu dia perdido vindo aqui.”


Ele sacudiu o saco, que carregava junto de si, para ficar mais aberto e marchou rumo ao galinheiro no fundo da casa ignorando as reclamações das Sem Bico.


Pela fresta das madeiras do galinheiro Juvento observava aquela movimentação chegando perto dele. Até que ele viu o saco e depois, viu aquele ser Sem Bico: “Aquelas eram as canelas certas!” 


As galinhas se desesperaram quando a porta se abriu brutalmente, e voaram de um lado para o outro no galinheiro. Habilidoso, o Sem Bico conseguiu agarrar os pés de Maricota que passou voando por sua cabeça. Enquanto a empurrava para dentro do saco as outras galinhas conseguiram passar para o lado de fora e Marizim fechou a porta atrás de si.


O Sem Bico confuso, olhou para trás vendo que estava trancado e já ia gritar para as Sem Bico soltá-lo, mas sua atenção focou em outra coisa. No canto escuro daquele galinheiro emanava uma energia pesada. 


Lentamente Juvento saiu para a luz do sol, que em forma de feixe passava pelas ripas de madeira. Duas vezes o tamanho de um galo comum, o bicho tinha a vingança queimando nos olhos.


Só deu tempo do Sem Bico dizer: 




Lasquei-me.” 





Todo maltrapilho e com orgulho ferido, o Sem Bico saiu correndo rua afora. Depois que as boas Sem Bico conseguiram abrir a porta do galinheiro para salvá-lo. 


Só levou consigo o saco vazio. 


“Isso aqui fica para pagar o estresse que sua cara feia fez minhas galinhas passarem!” Gritou a senhora Sem Bico, guardando as notas nos peitos. 


Juvento posou ao lado delas vitorioso. Ele não estava as enfrentando, pelo contrário, ele parecia estar protegendo como fazia com as galinhas. 


“Quer saber filha, acho que estamos precisando de um cão de guarda melhor.” Concluiu a Sem Bico mais velha.


O cão que tinha na casa que é só latiu todo esse tempo choramingou ao fundo. “Não se preocupe, você ainda pode ser meu cão fofinho.” A Jovem Sem Bico tentava animar o bichinho que foi rebaixado de cargo e a senhora riu divertida. 


O galo Juvento estufou o peito satisfeito e cantou como nunca tinha feito.

 

Fim.





Copyright © 2024 Andreia Colecto



O galo Juvento foi baseado em fatos reais. Aqui em casa criávamos galinhas, pelos ovos e também para que comessem os insetos e dessem fim nos restos de comida. Daí resolvemos comprar pintinhos da raça Índio, para ver como eram. Não esperávamos que no meio ia crescer um galo raivoso com olhos endiabrados. Sim, chorei na calçada com medo de entrar em casa. E realmente ninguém acreditava, mas ele provou batendo em bem mais gente que o relatado no conto.

O fim dele foi bem mais óbvio do que o Juvento teve. Porém sua trajetória foi tão marcante que mereceu que eu tirasse um tempinho para imaginar o porquê de tanto ódio em seu pequeno coraçãozinho. E não foi só o galo que deixou história para contar, as galinhas não ficam atrás. Meu brinco de ouro roubado que o diga. Mas isso é assunto para outra história, quem sabe! xx

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