Chatear-se com apelido é assiná-lo na carteira de identidade
Como ser chamada de Wandinha Addams me ensinou a reagir a apelidos inconvenientes. ♥
Sempre tem aquele engraçadinho que apelida todo mundo para ser o legalzão do grupo. Como vivemos em um mundo que é uma grande quinta série, precisamos saber lidar com os aborrecimentos. Se você demonstrar vulnerável e achar ruim o tal do apelido, já era. E descobri na prática com o meu próprio apelido que ignorar é a melhor solução. Venha saber o que houve.
Aos dez anos troquei de escola para entrar no fundamental. E foi terrível, menos para os pestes que me perturbavam. Para eles, com certeza, era bem divertido. Adoravam me chamar de várias coisas: magrela, dentuça. Quando coloquei o aparelho nos dentes piorou, e irei me poupar em escrever estes apelidos aqui.
Claro que eu punha respeito, não aceitava calada, mas não adiantava. Eles continuavam. Os anos foram passando e eu esperneava, mas só piorava.
Já deu para perceber que eu me afetava demais com os apelidos. Só que no último ano nessa escola, antes do ensino médio, me ocorreu algo que mudaria toda a minha percepção sobre o assunto. Como ninguém abriu meus olhos, um novo apelido me ensinou que quanto mais se demonstra está desconfortável, mais os desocupados se aproveitam.
E foi preciso que cada um escolhesse um apelido carinhoso para o uniforme do oitavo ano. Enquanto eu dizia para escreverem Deia h-tinha, outro corrigiu: “Parece mais a Wandinha.” Foi o suficiente! Até a minha identidade se reescreveu, a partir dali, Wandinha Addams era o meu nome.
Para situá-lo da minha humilhação: nessa época eu tinha muita dificuldade de domar meu cabelo cacheado. Por esse motivo duas tranças, uma de cada lado, era meu penteado favorito.
Acredito que agora deu para pegar a linha de raciocínio do meu “criativo” bullying-neiro. Porém, na época, eu não entendi nada. Porque eu não conhecia a personagem, mas lembro das minhas amigas falando para eu não achar ruim porque: “a Wandinha é muito da hora”.
Por sorte, os deuses do entretenimento influenciaram a programação da sessão da tarde naquela semana e enfim pude conhecer a verdadeira face do meu novo apelido. O filme nem foi a versão mais conhecida da atriz Christina Ricci. E sim, a ignorada versão de 1998.
E para o azar dos engraçadinhos, eu amei toda aquela estética e mais ainda a personagem. O humor irônico e mórbido acabou me inspirando a agir de outra forma frente aos meus problemas que estava enfrentando.
No outro dia já coloquei em prática meu plano. Passei a ignorá-los. E conseguia sentir a confusão quando percebiam que eu gostava do apelido. Uma áurea invisível pairou sobre mim, de confiança. Não tardou muito, os tais palhaços pararam com as gracinhas. E apenas aqueles que eu gostava me chamavam como Wandinha.
Hoje pouquíssimas pessoas lembram desse apelido. E só me chamam por ele por eu gostar e permitir essa intimidade.
Se você não gosta de um nome que te chamam, seja firme em dizer que não gosta, mas não demonstra muita importância. É a intensidade da sua reação que pode dar combustível para o palhaço. ꧖✦
Momento blogueirisse:
Mais velha me fantasiei em homenagem a superação da minha versão adolescente.
༞


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